por:Carolina Giovanelli |revista veja 26/10/2011
Palestra antes do “passe”: pacientes em silêncio
Agliberto Lima
Uma casa de esquina pintada de verde,
no Parque Vitória, na Zona Norte, apresenta um movimento parecido com o
de um consultório veterinário às quintas, sextas e aos domingos.
Dezenas de gatos e, principalmente, cachorros entram e saem presos em
coleiras, dentro de caixinhas e aconchegados no colo de seus donos. Não
se trata de uma clínica médica, mas da Associação Espírita Amigos dos
Animais (Asseama), o único centro dessa doutrina religiosa da capital
especializado em receber bichos de todas as espécies. “Queremos mudar a
consciência das pessoas em relação a esses seres vivos, que têm alma e
dependem de nós”, afirma Sandra Denise Calado, presidente da entidade.
Ela diz que se descobriu médium no fim da década de 90. Com dois amigos
veterinários, Marcel Benedeti e Cristiane Villarista, criou, em 2006, a
Asseama. Três anos depois, a associação ganhou sede própria, onde hoje
são atendidos 200 fiéis por semana.
Agliberto Lima
A médium Sandra: “Aqui é só mais uma etapa no processo de cura"
Num domingo típico, o dia de maior movimento, os carros começam a
chegar por volta das 8h30. Os frequentadores se reúnem em um
quintalzinho, onde há uma lanchonete vegana (sem carne, laticínios e
ovos). Só são vendidos produtos como croquete de alho-poró com tofu
defumado e coxinha de proteína de soja. Em seguida, as pessoas com seus
bichos se dirigem a uma sala repleta de quadros religiosos — com imagens
de Jesus e São Francisco de Assis, padroeiro dos animais — para orar e
assistir a uma palestra. Durante quinze minutos, os animais de estimação
permanecem surpreendentemente em silêncio, sentados junto de seus
donos. Vez ou outra uma sinfonia de miados ou latidos toma o ambiente,
porém o barulho dura pouco tempo.
No fim da apresentação, um a um eles se dirigem para um cômodo
separado a fim de “tomar passe”. De acordo com a doutrina, esse processo
se dá quando um espírito transmite energias através das mãos de um
médium, colocadas na cabeça do animal. A dona de casa Eloisa Lorenzetti,
criada em família católica, aparece ali toda semana com seu pequeno
poodle Kiko, de 11 anos. Ele foi diagnosticado com linfoma em maio e
perdeu a maioria dos pelos por causa das sessões de quimioterapia.
“Antes eu só chorava”, diz ela. “A Asseama me trouxe muito consolo.”
Agliberto Lima
Oração: 200 pessoas vão ao centro por semana
Sempre gratuito, o tratamento também pode ser realizado a distância.
Cerca de 3.500 animais de outros locais do Brasil e até do exterior,
entre cavalos, ovelhas, porcos e galinhas, foram cadastrados por seus
donos no site da entidade para receber as boas vibrações. Logo após as
sessões ao vivo, o grupo de quinze voluntários se reúne para pedir
auxílio divino para a bicharada distante. Nessa hora, o proprietário
precisa estar junto do companheiro de estimação, em silêncio e
concentrado. Mantida por doações, a Asseama promove ainda festas
temáticas e aulas de culinária vegetariana. No começo do mês, a equipe
lançou o livro “O Evangelho dos Animais”, psicografado pela própria
Sandra.
Quase todos os pets que aparecem por lá sofrem com algum problema de
saúde. É o caso da gatinha Lola, que perdeu a visão por causa de um
herpes-vírus. “Quando vim para cá, achei que aconteceria um milagre e
ela se recuperaria totalmente”, conta a aposentada Yara Alves. “Isso não
aconteceu, mas o atendimento ajudou muito em pequenos problemas, como a
baixa imunidade dela.” O alegre cão dachshund Bola, de 7 anos, se
locomove com um carrinho acoplado a suas patas traseiras por causa de
uma paraplegia. Já o cocker Boby enfrenta um câncer no fígado. “Ele
sempre sai daqui muito tranquilo”, garante sua dona, a psicóloga Márcia
Souza.
Apesar das reações positivas, a presidente da Asseama não aconselha
ninguém a abandonar o tratamento veterinário. “Aqui é só mais uma etapa
para auxiliar na cura”, diz. Outra pergunta recorrente relacionada ao
serviço é a seguinte: quem perdeu um animal querido pode encontrar sua
“alma” circulando pelo local? Acredite se quiser: de acordo com Sandra,
seria possível, sim, ter notícias de bichos já falecidos. Mas somente
médiuns como ela conseguiriam ver esses espíritos.
Associação Espírita Amigos dos Animais (Asseama)
Rua Manuel de Moura, 63, Parque Vitória
☎ 3534-3643
Quinta, 16h30 e 17h30; sexta, 19h; domingo, 9h, 9h50, 10h45 e 11h35 www.asseama.com.br.
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